O número de empresas em recuperação judicial no Brasil alcançou um patamar histórico em 2025 e reforça a necessidade de atenção redobrada por parte de empresários e gestores financeiros em 2026. Ao todo, 5,6 mil companhias estavam em processo de reestruturação ao final do ano passado, o que representa um crescimento de 24,3% em relação a 2024.
Somente em 2025, 1,6 mil empresas recorreram à recuperação judicial, enquanto pouco mais de 560 conseguiram concluir o processo, evidenciando a dificuldade de retomada financeira em um cenário econômico mais restritivo.
Aceleração dos pedidos no fim do ano
Os dados indicam que o movimento ganhou força no último trimestre de 2025, quando 510 empresas ingressaram com pedidos de recuperação judicial — o maior volume já registrado para um único trimestre. Esse número representa um avanço de 7,5% em relação ao trimestre anterior, sinalizando uma tendência de agravamento da crise financeira empresarial.
Juros elevados e crédito restrito pressionam o caixa das empresas
Entre os principais fatores que explicam esse aumento estão:
- Taxa básica de juros mantida em 15% por cinco reuniões consecutivas do Copom, o que encarece financiamentos e renegociações;
- Restrição ao crédito, intensificada desde grandes crises corporativas recentes, que levaram o sistema financeiro a adotar critérios mais rígidos;
- Aumento do risco sistêmico no mercado financeiro, afetando a confiança e a liquidez disponível para empresas endividadas.
Esse ambiente tem dificultado o alongamento de dívidas e comprometido o fluxo de caixa, especialmente de empresas já fragilizadas.
Endividamento cresce e casos de grande impacto chamam atenção
Outro ponto relevante é o aumento expressivo do volume de dívidas declaradas pelas empresas em recuperação. Apenas as companhias que ingressaram com pedidos no último trimestre de 2025 somaram R$ 40 bilhões em passivos, mais que o dobro do valor registrado no trimestre anterior.
Grande parte desse montante está concentrada em poucos casos de grande porte, o que evidencia como crises empresariais relevantes podem distorcer os números gerais e afetar cadeias produtivas inteiras.
Setores mais afetados
Apesar do recorde absoluto, o número de empresas em recuperação judicial ainda representa uma parcela pequena do total de companhias ativas no país. Em média, são 2,13 empresas em crise a cada mil. No entanto, alguns setores apresentam índices bem acima da média nacional, como:
- Agropecuária
- Indústria
- Infraestrutura
Já os setores de comércio e serviços apresentam níveis mais baixos, embora também sintam os efeitos do crédito caro e da desaceleração econômica.
É importante destacar que a aprovação de um plano de recuperação não elimina as obrigações financeiras da empresa. O acompanhamento contínuo, a revisão de premissas e o controle rigoroso do fluxo de caixa seguem sendo fundamentais para o sucesso do processo.
Agronegócio entra em zona de alerta
O agronegócio merece atenção especial. Em algumas regiões, o crescimento de empresas insolventes foi expressivo, impulsionado principalmente por:
- Custos de produção elevados
- Queda nos preços das commodities
- Juros altos
- Dificuldade de acesso ao crédito
O cultivo de soja e a pecuária estão entre as atividades mais impactadas, e a expectativa é de que esse movimento continue ao longo de 2026, caso o cenário macroeconômico não apresente melhora significativa.
O papel da contabilidade em tempos de crise
Diante desse contexto, a atuação estratégica da contabilidade se torna ainda mais essencial. Planejamento financeiro, análise de viabilidade, controle de endividamento e acompanhamento de indicadores econômicos podem ser determinantes para evitar que dificuldades temporárias evoluam para situações mais graves.
Mais do que cumprir obrigações fiscais, o contador assume um papel fundamental na tomada de decisão, ajudando empresas a atravessar períodos de instabilidade com mais segurança e previsibilidade.
fonte: Valor Econômico
