Por Que as Recuperações Judiciais Continuam Elevadas?

Por Que as Recuperações Judiciais Continuam Elevadas?

Por Que as Recuperações Judiciais Continuam Elevadas?

Os pedidos de recuperação judicial continuam ocupando espaço relevante no cenário empresarial brasileiro em 2026. O movimento não é exatamente novo: em 2025, foram registrados 977 processos de recuperação judicial envolvendo 2.466 CNPJs, maior número de empresas da série histórica da Serasa Experian e crescimento de 13% em relação ao ano anterior.

Em 2026, o tema ganhou ainda mais visibilidade, especialmente durante o mês de agosto, com pedidos envolvendo empresas conhecidas e grupos de grande porte de diferentes setores.

É importante, porém, fazer uma distinção. Dados mais recentes da PreservaCred identificaram 79 novos pedidos de recuperação judicial em agosto de 2026, contra 80 em julho. Portanto, agosto não apresentou crescimento mensal em quantidade de processos. O que chamou atenção foi principalmente o porte econômico e a notoriedade das empresas que recorreram a mecanismos de reestruturação.

Entre os casos que ganharam destaque estão o Grupo Casas Bahia, que apresentou pedido de recuperação judicial envolvendo aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, além de outras companhias dos setores de varejo, alimentação, saúde e indústria. A Braskem, por sua vez, optou pela recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.

 

O que explica esse cenário?

Não existe uma única causa para o aumento das empresas em situação de recuperação. Cada companhia possui características próprias, níveis distintos de endividamento e problemas operacionais específicos. Entretanto, alguns fatores econômicos ajudam a explicar por que negócios financeiramente mais vulneráveis estão encontrando dificuldades para reorganizar suas obrigações.

Um dos principais pontos é o elevado custo do dinheiro. Apesar da redução promovida pelo Banco Central em agosto, a taxa Selic permaneceu em 14% ao ano. No crédito livre destinado às pessoas jurídicas, a taxa média chegou a 25,4% ao ano em julho. Para empresas que dependem de capital de giro ou precisam constantemente refinanciar suas dívidas, esse cenário aumenta significativamente as despesas financeiras e reduz a capacidade de geração de caixa disponível para a operação.

Outro sinal de pressão está na inadimplência empresarial. Em julho, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, maior patamar da série divulgada pela Serasa Experian, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas. Desse total, 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas.

Também pesa a dificuldade de rolagem das dívidas. Empresas que construíram estruturas de capital fortemente dependentes de recursos de terceiros passam a enfrentar um problema quando empréstimos antigos vencem e precisam ser substituídos por novas operações contratadas a custos significativamente maiores. Mesmo negócios que continuam apresentando receitas relevantes podem enfrentar crises de liquidez quando o fluxo de caixa não acompanha o crescimento das obrigações financeiras.

 

Os impactos também variam conforme o setor

A pressão não ocorre de forma uniforme.

No agronegócio, por exemplo, a Serasa Experian registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 21,9% na comparação com igual período de 2025. Além do crédito mais caro, empresas e produtores podem ser afetados por oscilações nos preços das commodities, custos de insumos e eventos climáticos.

No varejo, por outro lado, juros elevados possuem efeito duplo: aumentam as despesas financeiras das empresas e tornam mais caro o financiamento ao consumidor. Somam-se a isso margens reduzidas, forte concorrência, mudanças nos hábitos de consumo e estruturas operacionais que, em determinadas empresas, já apresentavam fragilidades antes do atual ciclo de crédito. Dados do Monitor RGF-BIZDOC apontaram aumento de aproximadamente 20% no número de varejistas em recuperação judicial entre junho de 2025 e junho de 2026.

Por isso, seria inadequado interpretar todos os pedidos de recuperação judicial como consequência exclusiva do cenário econômico. Endividamento excessivo, problemas de gestão, perda de competitividade, redução de margens, decisões de investimento e particularidades de cada negócio também precisam ser considerados.

 

Recuperação judicial não significa necessariamente falência

O crescimento desses processos também reforça uma distinção importante. A recuperação judicial não representa necessariamente o encerramento das atividades da empresa.

O instrumento permite que negócios economicamente viáveis, mas em situação de crise econômico-financeira, busquem reorganizar seus passivos e negociar condições de pagamento com seus credores enquanto preservam, quando possível, suas atividades.

Para gestores e profissionais da contabilidade, o cenário atual reforça principalmente a importância do acompanhamento constante de indicadores como liquidez, geração operacional de caixa, nível de endividamento, cobertura das despesas financeiras, prazos médios e necessidade de capital de giro.

Muitas crises empresariais não começam quando a companhia deixa de faturar. Elas surgem quando a geração de caixa deixa de ser suficiente para sustentar uma estrutura de dívidas construída anteriormente.

Nesse sentido, o movimento observado nos últimos anos — e evidenciado novamente pelos casos de grande repercussão em agosto de 2026 — funciona como um alerta: crescimento de receita e manutenção das operações não substituem uma estrutura financeira equilibrada. Quanto mais cedo forem identificados sinais de deterioração da liquidez e aumento da dependência de capital de terceiros, maiores tendem a ser as alternativas disponíveis para uma reorganização antes que a crise exija medidas judiciais.