O número de empresas em recuperação judicial continua em níveis historicamente elevados no Brasil. De acordo com levantamento do Monitor RGF-Bizdoc, o país encerrou junho de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, um crescimento de 6,2% em relação ao fim de 2025.
Embora o ritmo de crescimento tenha sido inferior ao registrado no primeiro semestre de 2025 (7,3%), os números ainda demonstram que muitas empresas seguem enfrentando dificuldades para manter suas atividades.
Pequenas empresas lideram o avanço
Um dos aspectos mais relevantes do levantamento é a mudança no perfil das empresas que recorrem à recuperação judicial.
Nos últimos anos, o instrumento deixou de ser utilizado predominantemente por grandes companhias e passou a ser cada vez mais adotado por micro e pequenas empresas. Desde o início de 2023, a quantidade de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, passando de 513 para 1.575 CNPJs.
Enquanto isso, a incidência entre empresas de grande porte apresentou redução, cenário explicado, em parte, pelo crescimento da utilização da recuperação extrajudicial, modalidade que ganhou força após alterações na legislação.
Juros altos e crédito restrito continuam pressionando as empresas
Especialistas apontam que o aumento das recuperações judiciais é consequência de diversos fatores econômicos que vêm se acumulando nos últimos anos, entre eles:
• juros elevados;
• maior dificuldade de acesso ao crédito;
• aumento do endividamento empresarial;
• retração do consumo;
• demora das empresas em buscar mecanismos de reestruturação.
Mesmo com o início da redução da taxa básica de juros, o custo efetivo do crédito permanece elevado, especialmente para empresas de pequeno e médio porte que dependem de financiamentos bancários para capital de giro.
O problema da demora em buscar a recuperação
Outro ponto destacado pelos especialistas é que muitas empresas recorrem à recuperação judicial apenas quando sua situação financeira já está bastante comprometida.
Em diversos casos, anos de renegociações sucessivas acabam apenas adiando a crise, sem solucionar os problemas estruturais do negócio. Quando o pedido finalmente é apresentado ao Judiciário, parte da capacidade de recuperação já foi perdida.
Esse atraso também ajuda a explicar o baixo índice de sucesso das recuperações judiciais no Brasil. A simples renegociação das dívidas, sem mudanças na gestão, na operação ou no modelo de negócios, muitas vezes não é suficiente para devolver competitividade à empresa.
Impactos vão além das empresas devedoras
O aumento das recuperações judiciais também produz efeitos sobre toda a cadeia econômica.
Fornecedores frequentemente enfrentam longos prazos para recebimento de seus créditos, além de deságios previstos nos planos de recuperação. Como consequência, essas empresas também podem sofrer dificuldades financeiras, criando um efeito em cadeia que afeta diversos setores da economia.
Além disso, instituições financeiras tendem a aumentar suas provisões para perdas e endurecer critérios para concessão de crédito, tornando o financiamento mais caro para o mercado como um todo.
Há perspectiva de melhora?
Apesar de junho ter registrado uma pequena redução no número total de empresas em recuperação judicial em comparação com maio, especialistas entendem que um único mês ainda não representa uma mudança definitiva de tendência.
A expectativa é que uma redução consistente dos pedidos dependa de fatores como:
• queda sustentável dos juros;
• maior oferta de crédito;
• redução da inadimplência;
• recuperação da atividade econômica;
• planejamento financeiro mais preventivo por parte das empresas.
Enquanto esse cenário não se consolida, a recuperação judicial continuará sendo um importante instrumento para empresas que buscam reorganizar suas finanças e preservar suas atividades diante de um ambiente econômico ainda desafiador.
Fonte: Poder 360
